EM TEMPOS DE APELO TECNOLÓGICO
Por onde andam meus cadernos? Aqueles em que pus meus escritos nos tempos de escola (1º e 2º Graus)? Menino sonhador, escrevia neles todas as minhas histórias e experimentações "poéticas" na esperança de um dia, salvos os melhores, publicar um livro. Nas mudanças da vida, os perdi. Talvez ainda tenha um e outro no amontoado de lembranças encaixotadas em cima do guarda-roupa.
Fui levar minha filha na escola hoje cedo e me fazia essas perguntas. Até que saiu um haicai:
Meu caderno / O barro com que amarro / Meu furor eterno
Como sempre segui o modelo 5-7-5, quis métrica e trabalhei nele:
ainda em meu caderno
o barro com que amarro
meu furor eterno
A composição não sai assim, do nada. Elaborei mais um pouco:
inda em meu caderno... -
o barro em que amarro
meu furor eterno
Vou dar um título: O QUE FICA. Pronto!
Só consegui publicar meu primeiro livro de contos em 2007 - fui eu mesmo levar o apostilado na Cejup e entreguei em mãos ao editor Gengis Freire (paguei pela obra). Em 2015, a Cultural Brasil fez uma segunda edição para o Estado e, desse vez, nada saiu do meu bolso (me contentei com 50 exemplares pelos direitos autorais). Atualmente tenho cerca de 8 livros publicados (e participo de várias antologias literárias etc.) e eles reúnem toda essa história (parte dela figurando em O poeta - 2010).
Mas esse introito foi para exemplificar metalinguisticamente meu acontecer no campo da literatura. Escrevo desde os anos 80-90, e hoje me deparo com jovens escritores que talvez tenham os mesmos sonhos.
Agora, entremos no porquê do título desta postagem. Agosto de 2025, um jovem colega de trabalho da Secult-PP pôs a prova um conto do livro Casco-37, de um escritor iniciante, dizendo que consultou a IA para saber se o escrito era mesmo dele, ao que a IA deixou a dúvida. A conversa foi por WhatsApp, solicitei que o colega fizesse o mesmo com um conto meu do livro, e a conclusão se repetiu. Pedi para que ele me ensinasse a usar esse tipo de consulta na Internet - ele o fez. Então, agora era eu que punha a prova o mesmo escrito. Resultado da IA:
"Esse trecho muito provavelmente não foi escrito por uma IA. Ele apresenta diversas marcas típicas de um autor humano. (...)" E conclui: "Ele tem todas as marcas de um conto memorialista ou crônica regional, com escrita sensível e criativa. Provavelmente faz parte de uma obra literárias brasileira."
O parecer da IA foi a meu favor. Que bom. Porque iria discutir com ela sobre todo o tempo que eu nem imaginava essa tecnologia toda, muito menos a tinha. Meu primeiro computador foi um notebook que consegui, a duras penas, comprar em 2003; nesse tempo aprendia a usar o Orkut e o MSN.
Pois bem, coloquei o haicai acima composto à prova da IA. Resultado: "Eu não classificaria esse texto como 'provavelmente IA' apenas com base nele. Ele tem características compatíveis com poesia autoral contemporânea, embora uma IA também pudesse produzi-lo."
Assim é que experimentei outros textos meus à prova da IA. Entre "provavelmentes" e "possivelmentes", cheguei a conclusão de que se há alguma inteligência por traz dos meus textos, essa inteligência é minha. E prossigo, sem medo, caminhando pelas trilhas da literatura que eu quis e quero para mim.
Aos jovens escritores, a missão é bem mais difícil e haverá sempre aquele que duvidará (talvez até com propósito - cito o caso de Jerry Falade https://youtu.be/K33ikNYKQok?is=6S3tZPQPqmRV9zpG) de alguma autoria.
Encerrando - daria esse assunto várias páginas, se acrescentasse a conversa com meu editor Alfredo Garcia, e comentasse aqui trecho do prefácio de Paulo Nunes para meu livro nomeado à frente - fui contemplado com a Lei Aldir Blanc Estadual para a publicação e distribuição nos espaços de leitura de meu município da obra "Frutos do Infinito" (meu segundo livro de haicais).
Avoé, literaminha!
Jonas Furtado
Enviado por Jonas Furtado em 17/08/2026